Madrugada
Pedro Tell da Gama
(Lisboa)
Lembro-me bem da tua voz
Ela atravessou a minha escuta,
Como uma bola de fogo na madrugada
Lembro-me bem da tua voz. O resto...
Sim o resto parece-se apenas com a vida.
Ontem, passei na noite, e a escutar-te
Como se de um romance antigo se tratasse
Olhava para as horas despreocupadamente
E afugentava qualquer tédio que por ali passasse
De repente vi que estava triste, mortalmente
triste,
Tão triste que me pareceu que me seria
impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas manter-te assim pura, sem que o tempo te
apagasse
Fumei, sonhei, recostado na poltrona
Doía-me viver com uma posição incómoda
Mas para te segurar e ouvir teu canto
Gemia quieto num grito mudo de espanto
De beijos, sorrisos e ecos moribundos fizemos a
madrugada,
Trocando o leito pelas palavras, pelos sons de
pianos a tocar
Da musica fizemos tema e de nós melodias a
querer dar
Espíritos ousados com os lábios húmidos da chuva
abrigada.
Fitamo-nos sem nos vermos e brindámos frases
custosas
Com copos cristalinos a tilintar, das saudades
remotas
Dos tempos em que bebíamos amor, e a dor eram
paixões
Benditas e frutuosas trovoadas de calmaria e
trovões
Sem receios nem medos avançamos num maremoto
Repletos de espuma e de prazer explícito ao
momento
Por entre caminhos tortuosos mas cheios de
conhecimento
Das certezas que se cruzavam nos nossos
pensamentos
Lembro-me bem da tua voz...
Abriguei-te no peito, como a um inimigo que temo
ofender
Um coração desbravado em sangue vivo, sem querer
Puxando-te aos poucos para canções de ter e
sofrer
Com a cautela do meu sôfrego fugidio sempre a
irromper
Abriste-me as portas do teu refugio, e eu
Pisei os lençóis da tua voz, como se fosse fruta
espremida,
Sem parar eu bebia o suco desse néctar que
tremeu
O paladar de conchas e das ondas do mar
estarrecida
No encanto dormente e amistoso do sol nascente
A mágica de nos termos visto de novo
Foi como um rodopiar brilhante e fascinante
Que nos fez recolher num canto fechado como um
ovo
..... cheios de luz resplandecente....
(Repasse com os
devidos créditos)
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