O homem de cabelos grisalhos dirigia o carro sem se preocupar
com gestos e reflexo, todos naturais. A mente, porém, desfiava
pensamentos em fluxos desordenados mas suaves. Pensava em
novas atribuições profissionais, na aproximação da velhice, na
vontade de receber alguma comunicação da mãe morta há três
anos e meditava sobre o insuperável mistério da morte. O rádio
a tocar era referência distante e vaga, eis senão quando, dá-se
conta de ouvir a voz bela e distante no tempo do Jorge Goulart,
a cantar, magnífico:
"Laura, quéde a rosa
nos cabelos,
Laura, quéde o vale
sempre em flor..."
A melodia, a letra e o cantor tiraram-no do devaneio e das
cogitações mentais logo trazendo a beleza de antiga melodia,
com ela a década de cinqüenta, o compositor Alcir Pires
Vermelho falecido velhinho em 1994 (e a quem conhecera) e o
Braguinha de quem era fã, a voz belíssima de Jorge Goullart
dolorosamente perdida por enfermidade logo na garganta. A
essa altura a música estava a dizer:
"Oh Laura, como é
linda a vida
Oh Laura como é
grande o amor."
Isso depois de haver perguntado:
"Oh Laura, quéde o
teu sorriso?"
Oh Laura, quéde o
nosso amor?.."
Deu-se conta de lágrima nos olhos. A racionalidade, implacável
e boba, perguntava-lhe por que? Não quis responder-se.
Preferiu deixar fluir a melodia, a linda interpretação de Jorge
Goulart e a invasão doce-e-dolorosa dos anos cinqüenta, ele
jovem, turbilhão de vivências lindas, as festas, aquele espanto,
adaptou o nome Laura para o de suas recordações, pensou nas
impossibilidades e em tudo o que vive num plano paralelo
porque não chegou a existir por completo na vida vivida,
impossível entender, apenas deixar passar a fluxo da memória
emotiva, atropelada por si mesma, tudo em forma de emoção e
da lágrima misteriosa que não rola apenas umedece.
Um imbecil na contramão, farol alto, jogou-o para perto do meio
fio. Refeito do susto, só tinha a dura realidade urbana de seus
dias atuais para enfrentar. A melodia e a letra teimavam:
"Laaauráaa, o sorriso
de criaaançáa.
Laaauráaa, nos
cabelos uma flor.."
(Artur da Távola.)
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