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Olhar febril, massacrado de tanto ver o
cotidiano, lá estava o menino sentado no
rochedo, com o olhar fixo no horizonte.
Pés descalços, feridos e sangrando da longa
caminhada em busca de um gesto de ternura.
Camisa aberta ao peito por onde a brisa de
todos os mares passeava massageando aquele
coração desesperançado.
Fome sede e saudade emolduravam aquela figura
quase tísica com quem sonhei ontem.
Fome de carinho e de amor, sede de felicidade
e saudade do que nunca tivera.
Lá longe os fogos de artifício explodiam, e bem
dentro do seu coração choravam sonhos dispersos,
estrangulados, anunciando um novo ano.
E dentro daquele menino quase tísico se
renovavam as esperanças.
E, entre um sorriso e um soluço, pedia apenas
uma coisa: que no Ano Novo olhassem um pouco
para ele e para seus irmãos de rua.
E o menino adormeceu.
Adormeceu e sonhou.
Sonhou que estava num palácio cheio de luzes
multicoloridas.
Tinha, também, uma enorme árvore de Natal,
carregadinha de presentes para ele que estava
vestido com roupas novas, debruadas como as dos
meninos ricos, sapatos de príncipe encantado.
Havia, também, uma mesa enfeitada onde ele
comia à vontade.
E assim o menino continuava a dormir e a
sonhar.
Chegou até a sorrir sem muito jeito, pois
perdera o sorriso desde aquela noite, quando foi
torturado numa casa de correção de meninos
excluídos pela sociedade.
Mas logo sentiu algo diferente e, quando se
voltou, olhou para a porta da casa.
Lá estava uma fila de meninos maltrapilhos,
seus irmãos de rua, dentre eles o Buba, seu
melhor amigo, que o chamavam.
E o menino acordou tão só como há muito tempo,
e com saudade da felicidade que o enganou
enquanto sonhava.
José Maria Guilherme
Natal/RN
12/2001
(Repasse com os devidos créditos)
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