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Iraima Bagni
(*Laur@)
Saindo do Luto
Hoje resolvi falar com você, que perdeu alguém
querido e ainda não se conformou... Contar o que
aconteceu comigo, nesses anos, em que estou
longe do corpo físico da minha mãe.
Quando ela adoeceu, achei que seria algo
passageiro.
Cuidamos dela com todo amor e carinho; mesmo
assim, papai do Céu resolveu chamá-la.
Nesse momento eu estava me sentindo forte!
Achava que deveria cuidar e consolar a família e
os amigos que choravam a sua perda. E, afinal,
dentre todos os que estavam ali dando-lhe o
último adeus, eu achava que era a pessoa mais
forte. Só eu poderia segurar essa "barra" e,
acima de tudo, acreditava que quando alguém
parte, está apenas deixando o corpo físico, pois
o espírito não morre, apenas troca de morada.
Dois dias após sua partida fui separar suas
preciosidades, livros, roupas, perfumes etc...
Ela não gostava de juntar muita coisa; dizia que
quando partisse não levaria nada...
Enquanto separava suas roupas, chorava; um choro
controlado. Achava que não deveria chorar muito
porque, mesmo no plano espiritual, ela poderia
sentir minha tristeza e eu não queria isso.
Algumas roupinhas guardei para mim, queria ter
uma lembrança material dela. O restante doei
para os necessitados.
A vida tinha que continuar...
Voltei para minha casa... Chorei sim, um choro
controlado. Quando parecia me descontrolar,
rezava e pedia a Deus para ajudar-me a ser mais
forte.
Mais ou menos um ano após a sua partida, já não
conseguia dominar o choro; quando a saudade me
apertava, pegava uma daquelas roupinhas
guardadas de lembrança ou abria aquele vidrinho
de perfume... E chorava uma saudade doída... Já
não era um choro controlado, fechava a porta do
quarto, as lágrimas desciam e eu gritava em
pensamento que a queria ao meu lado.
Sentia-me uma criança pequenina e órfã.
Sem perceber fui-me fechando; meus aniversários
já não tinham graça, passava o dia chorando, não
queria mais sair de casa.
No Dia das Mães e no aniversário dela eu me
consumia aos poucos. Meu semblante alegre,
tornou-se triste.
Já não importava se meu choro iria prejudicá-la no mundo espiritual, eu a
queria ao meu lado, e por várias noites pedi que
voltasse pra junto de mim. Várias vezes briguei
com Deus, chamando-o de injusto por tê-la levado
tão cedo.
Ela partiu e eu fiquei doente de saudade, já não
me escondia para chorar. Quem perguntasse o
porquê do choro, dizia... “Perdi a minha mãe,
ela me faz falta e eu a quero do meu lado!”.
Cinco anos depois ainda chorava nos
aniversários, no Natal e Ano Novo. Quando me
sentia perdida chamava-a.
Queria porque a queria ao meu lado novamente.
E assim fui caminhando, inconformada e chorando
uma saudade doída. Aquela pessoa forte já não
existia mais, entrei em depressão e achava que
jamais voltaria a ser alegre como antes.
Hoje, alguns anos após sua morte eu não chorei
no aniversario e nem no dia das Mães. E lembrei
que também não chorei no Natal e no Ano Novo.
Descobri que finalmente eu tinha saído do "meu
luto interno".
Sim ! Eu já não estou mais de luto por minha
mãe.
E estou feliz com essa descoberta.
Hoje posso falar dela, emocionar-me e deixar
algumas lágrimas caírem. Não são mais lágrimas
"controladas" ou "descontroladas". São apenas
lágrimas de saudade, não dói mais. Percebi que
ela está muito viva aqui dentro do meu coração e
por isso voltei a sorrir e me permiti ser feliz!
Isso tudo levou-me a uma depressão, e precisei
buscar ajuda de um terapeuta. Descobri que cada
pessoa tem seu tempo para ficar de "luto”.
Descobri também que quando perdemos alguém
querido, não devemos tentar ser fortes.
Devemos sim, chorar todas as nossas dores. Dessa
forma sairemos mais rápido desse "luto interno”.
Não importa que as pessoas digam “não chore,
seja forte, você precisa se controlar".
Esqueçam. Por um tempo pense apenas em você e na
sua dor, e “curta” essa dor o tempo que for
necessário.
Um belo dia você descobrirá que não dói mais.
"Quando descobrir que já não dói mais, que
apenas ficou uma saudade gostosa, não fique com
remorsos. Afinal, esse é o presente que o Senhor
Tempo veio entregar-lhe"!
Iraima Bagni
Niterói, RJ
(Repasse com os devidos créditos)
Poesia exclusiva do site |